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choro

SPUT&NIK theWindow, Porto, Portugal, 2026

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Exhibition CHORO by Clara de Cápua. SPUT&NIK theWindow, Porto, Portugal, 2026.

“Segurando um pintinho amarelo com tanto amor que ele sufocou. (choro!)”​

 

É esta frase, escrita no verso de uma fotografia antiga, que dá nome à exposição.

Na fotografia, Therezinha, ainda criança, segura entre as mãos um pequeno pintainho. A imagem parece registar um momento simples da infância: uma criança sentada, um animal pequeno entre as mãos, ao redor: o fundo de um quintal. Só a legenda revela aquilo que a fotografia não poderia contar. Ao tentar fazer uma festa ao pintainho, a criança apertou-o com tanta força que ele sufocou.

É nesse intervalo entre intenção e consequência que a exposição CHORO começa.

A fotografia pertence ao arquivo familiar da Clara. É uma dessas imagens produzidas sem intenção artística, registadas para guardar um momento e preservar uma lembrança. Como tantas fotografias de família, foi provavelmente criada para permanecer dentro de um círculo privado, entre pessoas que partilham nomes, histórias e afectos. São imagens que, reunidas em álbuns ou guardadas em caixas, acabam por construir uma narrativa da família: quem esteve, onde, quem era criança, quem desapareceu, quem envelheceu, quem já não está. O álbum familiar constitui, assim, uma forma de arquivo amador. Não é um arquivo construído por historiadores ou instituições, mas por pessoas que registam a própria vida e, ao fazê-lo, constroem uma memória. A fotografia torna-se documento, testemunho e objecto afectivo. Guarda uma imagem, mas guarda também a possibilidade de regressar a um momento que já passou.

É justamente esta relação entre guardar e recordar que torna o arquivo tão próximo da memória. Como escreve Jacques Derrida em Archive Fever, o arquivo contém uma relação com a origem e com o desejo de regressar a ela, de conservar aquilo que ameaça desaparecer. Arquivar

pressupõe, de algum modo, a consciência de que a memória pode falhar. Guardamos porque sabemos que podemos esquecer - mas o arquivo não conserva o passado de uma forma neutra. 

Cada vez que regressamos a uma imagem, voltamos a interpretá-la. Cada nova leitura desloca

aquilo que pensávamos saber. O arquivo, em vez de fechar o passado, pode mantê-lo aberto.

É o que acontece quando a Clara reencontra a fotografia da avó.

Ela não encontra apenas a imagem de uma criança. Encontra a sua avó antes de ser sua avó: uma criança que existiu antes dela, num tempo ao qual não pode regressar senão através dos vestígios que ficaram. A fotografia torna-se, assim, uma espécie de passagem entre gerações.

E é aqui que a dimensão pessoal do trabalho se cruza com uma questão mais ampla sobre a fotografia de família.

Somos amigas e, de formas diferentes, o nosso trabalho tem-se encontrado várias vezes neste território das imagens familiares, da memória e das histórias que ficam presas às fotografias. Talvez por isso o trabalho de Clara me tenha levado também a uma imagem que guardo da

minha avó Ermelinda.

É uma fotografia rasgada, que ela própria colou com fita-cola. A marca da reparação ficou na imagem. A fotografia guarda, assim, não apenas o momento em que foi tirada, mas também tudo o que lhe aconteceu depois: o rasgão, as mãos que a tentaram recompor, o tempo em que

foi guardada e, finalmente, o olhar de quem hoje a recebe.

Também essa fotografia se desdobrou. A imagem que um dia serviu para fixar uma presença passou a contar outras histórias que não estavam necessariamente contidas no instante fotografado. Hoje, quando olho para ela, vejo a minha avó, mas vejo também a própria passagem do tempo, a tentativa de conservar, a fragilidade da imagem e o gesto de alguém que se recusou a deixá-la desaparecer.

Talvez seja por isso que reconheça nesta exposição CHORO uma questão que me é próxima: o que acontece às fotografias de família depois de sobreviverem a esse momento de registo?

Elas envelhecem, rasgam-se, são reparadas, guardadas, esquecidas e reencontradas. E, cada vez que voltamos a elas, podem contar uma história diferente.

Talvez por isso me tenha ficado tão presente uma noite em que a Clara me convidou para jantar. Depois do jantar, olhou para mim e perguntou:

“Estás pronta para ouvir?”

E começou a ler-me um texto em que descrevia esta fotografia, entre outras imagens.

Eu andava, nessa altura, a ler Phototherapy Techniques: Exploring the Secrets of Personal Snapshots and Family Albums, um livro que acompanhava algumas das minhas próprias interrogações sobre a fotografia de família e sobre a capacidade destas imagens aparentemente

banais, desencadearem memórias, narrativas e afectos.

Clara começou a ler.

Eu estava deitada num sofá, de olhos fechados, a ouvi-la e, aos poucos, aconteceu uma coisa interessante: deixei de estar apenas a ouvir um texto sobre uma fotografia. Comecei a viajar por imagens. Algumas conhecia apenas vagamente: outras pareciam surgir naquele momento. Era como se as palavras estivessem a abrir uma fotografia dentro de mim - imagens que eu não estava a olhar, mas que começava a imaginar.

Essa experiência ficou ligada à forma como penso esta exposição de nome CHORO.

Porque uma fotografia não termina naquilo que mostra.

Pode ser contada. Pode ser escrita. Pode ser ouvida. Pode ser imaginada. Pode produzir imagens que já não estão contidas no seu enquadramento original.

A fotografia da avó dela passa precisamente por esse processo.

Primeiro existe como fotografia.

Depois torna-se história.

Depois torna-se texto.

E, na obra de Clara, torna-se, também pintura.

Mas não uma pintura que simplesmente reproduz a fotografia.

Clara fragmenta-a.

A imagem original apresenta-nos uma totalidade: a criança, o pintainho, o corpo, a cadeira, a mão, o espaço, o momento. Nas pequenas pinturas, essa totalidade deixa de existir como uma só imagem. A artista aproxima-se de partes da fotografia, recorta-as, amplia-as e devolve-as ao

olhar separadamente.

As mãos tornam-se uma imagem.

Os pés tornam-se outra.

Um corpo, um objecto, um gesto ou um pequeno espaço podem ganhar uma existência própria.

É como se uma única fotografia desse origem a um pequeno álbum. Aquilo que estava reunido num só enquadramento desdobra-se agora numa sequência de imagens. A fotografia única passa a ser percorrida, quase como se estivéssemos diante de um álbum familiar e pudéssemos deter-nos, uma a uma, nas diferentes fotografias que o compõem.

Mas aqui existe uma inversão: no álbum familiar, são várias fotografias que, colocadas em conjunto, constroem uma narrativa, ou várias; em CHORO, é uma única fotografia que se multiplica para construir o seu próprio álbum. As pequenas pinturas não acrescentam novos acontecimentos à história, mas permitem olhar de novo para o mesmo acontecimento, de diferentes lugares e com diferentes tempos de atenção.

O que antes era simultâneo torna-se sucessivo. O que cabia numa única imagem passa a ocupar várias. E, entre uma pintura e outra, uma imagem e outra, abre-se um espaço para a memória e para a imaginação.

A fotografia única transforma-se numa multiplicidade de pinturas.

Esta fragmentação parece corresponder também à própria experiência da memória. Quando recordamos, raramente recuperamos uma cena inteira. A memória aproxima-se por detalhes: uma mão, uma cor, uma posição do corpo, um objecto, uma sensação. Algumas coisas permanecem nítidas; outras desaparecem. Há intervalos que somos obrigados a preencher.

As imagens de CHORO parecem habitar precisamente esses intervalos.

Cada uma retira um fragmento à fotografia para lhe dar um novo tempo de existência. Aquilo que estava contido num único instante fotográfico passa a existir em várias imagens. E, entre uma pintura e outra, permanece aquilo que não vemos.

É nesse sentido que a fragmentação não é apenas uma escolha formal. É também uma forma de pensar a memória.

Uma fotografia torna-se várias pinturas.

Um acontecimento torna-se vários fragmentos.

Uma memória torna-se várias possibilidades de recordar.

A fotografia diz: isto aconteceu.

A pintura parece perguntar: e o que ficou?

A fotografia conserva o instante; a pintura demora-se sobre ele.

E talvez seja justamente essa demora que permita à imagem deixar de funcionar apenas como documento e começar a funcionar como espaço de imaginação.

Esta operação encontra ecos em artistas que trabalharam a partir do arquivo familiar e da fotografia vernacular. Rosângela Rennó, por exemplo, apropria-se de fotografias de família, imagens de autores desconhecidos e arquivos públicos e privados, deslocando-as do seu contexto original e interrogando questões de memória, identidade, perda, esquecimento e ciclo de vida das imagens. O arquivo deixa de ser apenas depósito do passado e torna-se matéria para novas interpretações.

Jo Spence, por sua vez, interrogou o próprio álbum familiar e aquilo que habitualmente fica fora dele: conflitos, perdas, separações e outras experiências que não correspondem à narrativa idealizada da família.

Há também uma aproximação possível com Sophie Calle, sobretudo na forma como imagem e texto podem construir narrativas íntimas e como uma experiência privada pode ser transformada numa experiência partilhável.

Mas, em CHORO, o arquivo mantém uma especificidade fundamental: é o arquivo da avó.

Não é uma imagem anónima encontrada num arquivo perdido.

É uma imagem que pertence à história da Clara.

E talvez seja precisamente essa proximidade que permita que uma pequena fotografia de família se transforme numa investigação sobre o tempo, a memória e a própria natureza das imagens. Roland Barthes escreveu sobre a fotografia como testemunho de que aquilo que vemos esteve lá. A fotografia contém, ao mesmo tempo, uma presença e um passado: mostra-nos alguma coisa que existiu, mas que já não pode voltar a acontecer.

Na fotografia de Therezinha, esta tensão torna-se particularmente forte.

A criança continua ali.

O pintainho não.

O gesto continua.

O acontecimento terminou.

A fotografia ficou.

E, porque ficou, tornou possível que décadas depois alguém voltasse a olhar.

A Clara não pode regressar à infância da avó. Mas pode regressar à sua imagem.

Pode aproximar-se dela, fragmentá-la, pintá-la, escrevê-la, contá-la.

Pode, através da fotografia, construir uma relação com aquilo que não viveu.

O pequeno episódio do pintainho deixa então de ser apenas uma história sobre uma criança que sufocou sem querer um animal. Torna-se uma imagem sobre a aprendizagem do afecto e sobre a distância entre aquilo que desejamos fazer e aquilo que os nossos gestos podem provocar.

A criança queria cuidar - e fez morrer.

Talvez seja por isso que a palavra “choro” seja tão importante.

Ela aparece no fim da legenda, entre parênteses e com um ponto de exclamação: “(choro!)”.

É quase uma interrupção.

Não sabemos exactamente de quem é esse choro.

Da criança?

Da avó?

De quem escreveu a legenda?

Da artista?

De quem escuta a história?

De quem olha para a fotografia muitos anos depois?

Talvez não seja preciso saber.

O choro atravessa a fotografia como atravessa a memória: sem uma localização precisa, passando de uma pessoa para outra, de uma geração para outra.

CHORO não procura recuperar o passado tal como ele foi.

Procura perceber o que ainda pode acontecer a uma imagem depois desse acontecimento.

Uma fotografia é guardada.

Depois é reencontrada.

É contada.

É ouvida.

É imaginada.

É fragmentada.

É pintada.

E, nesse percurso, continua a produzir memória.

A fotografia original mostra uma criança a segurar um pintainho.

As pinturas fazem-nos permanecer nesse gesto.

Talvez seja esse o movimento mais importante da exposição: não voltar à fotografia para a explicar, mas voltar a ela para descobrir quantas imagens ainda pode conter.

Clara não pinta simplesmente a memória da avó.

Pinta os fragmentos que essa memória deixou.

E, ao fazê-lo, transforma um arquivo familiar numa matéria viva, aberta, capaz de continuar a produzir histórias e imagens muito depois de o instante fotografado ter desaparecido.

Porque algumas fotografias não terminam quando deixamos de olhar para elas.

Continuam a acontecer.

Tânia Dinis

para a Clara

em Agosto de 2026

Porto

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1. Podia ser a minha avó (series), 2026.
Acrylic on canvas, variable dimensions..


2. Penas, pele, olhos, patas, mãos, 2026.

Video-object: digital video, color, silent, 2’24” (loop), displayed on a television set integrated into a wooden box.

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3. Tudo o que existia estava em suas mãos (series), 2026.

Acrylic on canvas, 20 x 28 cm.


4. Choro, 2026.

Video, sound, color, 5’54’’. Edition: 1/5 + 2 P.A.


5. Elas (série),  2024.

Photographic reproduction and epoxi resin, variable dimensios.​​

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Exhibition CHORO, at SPUT&NIK theWindow, Porto, Portugal, 2026

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Promotional flyer for the exhibition CHORO.

credits

Clara de Cápua: CHORO

SPUT&NIK theWindow, Porto, Portugal, 2026

September 5th to October 3rd 2026

Curatorial text by Tânia Dinis

Acknowledgments: Ana Efe, Carla de Cápua, Fabiano Fernandes, Gabriel de Cápua Luna, Giovanna Maria Coelho, Luís Xavier, Maria Luísa Buffo de Cápua, Pérola das Fontaínhas (Dona Maria Inês and Seu Luís) and Teresa Arêde.

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